Edição de 17-04-2014
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História do Calçado

Arquivo: Edição de 20-03-2008

SECÇÃO: Crónica


História do Calçado

Século XIX: Do Manual ao Industrial

Até ao Século 19 a construção do calçado era feita totalmente à mão e, os sapateiros usavam praticamente as mesmas ferramentas usadas no Antigo Egipto.

Mas, na segunda metade este Século, a indústria do calçado despromove a produção artesanal. Surge a fabricação em série, com o advento de máquinas especializadas, o que revolucionou a indústria do calçado.

Assim, a produção do sapato cresceu e o seu custo baixou.

Outro facto relevante, que marcou o fabrico do calçado, foi o retorno, já no fim do Século 18, à distinção entre o pé direito e o pé esquerdo.

Esta técnica que, facilitada pela invenção do pantógrafo, se generalizará na segunda metade deste século com a industrialização do calçado.

Por isso, a partir de 1870 torna-se comum o uso de formas diferentes para cada pé, o que possibilita a produção de calçado mais adaptado à anatomia do pé.

Depois desta breve introdução vamos, de uma maneira cronológica, conhecer as máquinas que permitiram uma revolução e uma industrialização no sector do calçado.

E, sem qualquer dúvida, a mais importante foi a:

Máquina de Costura – “Desde que em 1846 Elias Howe, um agricultor de Massachusettes criou a primeira máquina de costura, os alfaiates encontraram nela uma grande aliada. Muito em breve a indústria de calçado adoptaria este invento à confecção de sapatos.

Até ao aparecimento da máquina de costura, todas as costuras dos sapatos eram feitos à mão. A sua primeira aplicação na indústria de calçado foi, precisamente, a costura de peles finas para a gáspea e o forro do calçado.

Das primeiras máquinas movidas manualmente por uma roda lateral, passar-se-ia às movidas a pedais e, depois, em finais do século XIX, às máquinas eléctricas. FOTO 1

Posteriormente, a técnica conseguiu melhorar a qualidade das agulhas, bem como de outros componentes.

Tudo isso permitiu fabricar máquinas de aparar, de coser peças de pele e muito mais.”

(In, Sapatos de Colecção, Volume 1, pag. 180, Edição Planeta D’Agostini).

Sobre esta máquina, aconselho o leitor a ler um artigo anterior, publicado neste jornal, em 21/09/2006 com o título “Curiosidades e Inventores II”, que conta a evolução, e quem foram os inventores, das diversas máquinas de costura que foram, e que continuam ainda, a ser amplamente utilizadas na indústria do calçado.

O ano de 1858 trouxe ainda mais inovações e invenções.

Lyman R. Blake (1835-1883), sapateiro, inventou uma máquina que cozia a sola com a parte superior do sapato, isto é, o corte. Recebeu a sua patente em 1858.

Em 1859, Gordon McKay (1821-1903), engenheiro, comprou a Blake a patente desta máquina e, com ajuda deste, aperfeiçoou-a.

Os sapatos feitos com esta máquina ficaram a ser conhecidos como “McKay Shoes”.

A história desta máquina e a sua divulgação entre os sapateiros americanos é bastante curiosa e digna de ser conhecida.

Mesmo aperfeiçoada, esta máquina foi difícil de vender.

No contacto com os sapateiros percebeu que todos eles estavam de acordo: era necessário aumentar a produção.

Assim, surgiu a ideia a McKay de oferecer colocar as suas máquinas nas fábricas em troca de uma pequena percentagem do que a máquina permitiria poupar no custo de produção de cada par.

Para concretizar isto, ele emitiu os “Royalty Stamps”, que representavam os pagamentos efectuados pelo uso da máquina.

Este método de introdução de máquinas tornou-se uma prática aceite por toda a indústria.

Ao referir esta ideia engenhosa, tenho a perspectiva de dois aspectos importantes.

Primeiro – os industriais de sapatos tinham a possibilidade de usar máquinas sem que, para isso, tivessem de despender grandes somas de dinheiro. E, como a moda se tornava mais competitiva, novos modelos foram surgindo, novos materiais foram usados, o fabricante não ficava com o ónus de enormes investimentos em máquinas obsoletas em resultado destas mudanças. E porquê? Perguntará o leitor. Porque:

Segundo – McKay desenvolveu um tipo de serviços que se veio a provar de ser uma grande valia para a indústria de calçado, assim como, para todas as indústrias.

Este serviço foi utilizado em exclusivo para o calçado, sendo mais tarde copiado e adoptado a todas as indústrias, como uma mais valia.

Assim, McKay descobriu que, a fim de assegurar o pagamento pelo uso das máquinas era necessário mantê-las em funcionamento.

Uma máquina que não estava funcionando, não dava a ganhar nenhum dinheiro a McKay.

Logo, entre a descoberta desta realidade e a concretização para colmatar esta situação, surgiu a ideia de fazer peças suplementares, ao mesmo tempo que, organizou e treinou um grupo de peritos capazes de se deslocar para qualquer parte do país para, sempre que necessário, proceder à substituição ou à adaptação de peças às máquinas.

Desta forma, a máquina além de estar sempre a produzir ( e a render dividendos), estava actualizada aos ventos da moda.

Em 1875, surgiu outra máquina que, mais tarde ficou conhecida por Goodyear Welt Sewing Machine, que possibilitava, além de costurar sapatos, orlar. Esta máquina foi um sucesso sob a gestão de Charles Goodyear, Jr., filho do famoso inventor do processo da vulcanização da borracha.

Muitas mais máquinas surgiram neste século para facilitar o sapateiro, e aumentar a qualidade do calçado e a sua produção. Mais tarde, em outro artigo, escreverei sobe os pequenos inventos, que lá por serem pequenos requereram muitos anos de investigação e muito dinheiro.

No artigo anterior não referi que, o ressurgir da prática desportiva no Reino Unido pelo Século 18, obrigou ao desenvolvimento de calçado flexível com capacidade de tracção, tendo surgido no Século 19 o sapato (sapatilha, segundo alguns historiadores), em couro com tachas para tracção.

Sobre este tema “Calçado Desportivo”, vou escrever, proximamente, um artigo sobre o mesmo.

Tudo o que escrevo, é fruto de leitura e pesquisa em documentos escritos ao longo dos tempos. Não invento nada, nem faço nenhum romance sobre este tema.

Assim, de um número do jornal “Propaganda Industrial”, de Março de 1888, transcrevo o seguinte, relacionado com a indústria do calçado:

“Novo Sistema de Fabricar Calçado – Por meio de um sistema adoptado, são colocadas e espaçadas internamente na planta do pé umas braçadeiras metálicas com bicos em redor. Nesses bicos são espetadas as extremidades do couro de cima ficando, ainda, comprimento bastante para segurar a sola, a qual é posta sobre os mesmos bicos e se martela a fica de vez.

Máquinas de Coser as Palmilhas do Calçado – São construídas de três tamanhos: o primeiro destinado a calçado de senhora e de criança; o segundo para calçado de homem ou militar; o terceiro para botas de Inverno.

Máquina Universal de Costura para Sapateiro – Esta máquina goza o título de “universal” em vista dos variados serviços que presta na costura e calçado, cosendo a pesponto e ponto descoberto as chinelas. Pode ser empregada em todos os trabalhos acima indicados ou, especialmente, em qualquer deles.”

Neste Século, surgiram grandes marcas que se mantêm até hoje. De muitas delas escolhi como exemplo: Van Lier (1815), Bally (1851), Lotusse (1877) e Bata (1894).

Todos estes Industriais apostaram no desenvolvimento das máquinas, não só para pouparem na mão-de-obra como, também, para proporcionarem modelos atractivos e inovadores, aos seus potenciais clientes.

Sobre estes Industriais escreverei, também, uma crónica. A sua História merece ser conhecida.

Em S. João da Madeira, a primeira fábrica de calçado, de nome “Sapataria da Moda”, surge por volta de 1883, cujo proprietário era Gaspar de Almeida Pinho.

E este artigo não teria fim se continuasse a escrever sobre este tema e este Século.

No entanto, não posso terminar esta crónica sem escrever sobre o calçado na pintura do Século 19.

Recorrendo, novamente ao livro “Sapatos de Colecção”, temos:

“ O auge da pintura romântica em grande parte do século 19 deixou-nos cenas da vida quotidiana em que os personagens exibem o seu calçado. (…) Desde os retratistas da corte napoleónica (…), até ao olhar pouco complacente de Toulouse-Lautrec, a pintura do século XIX ilustra as modas da época. Os quadros estão pejados de personagens que calçam diferentes tipos de sapatos, de acordo com as circunstâncias que vivem. Os historiadores e, neste caso, os investigadores das modas de calçado, sempre tiveram neles uma extraordinária fonte de informação.”

Vou deixar, a si leitor, alguns nomes de pintores que retrataram os diferentes tipos de calçado usados em diversos países: Jacques Louis David (1748-1825), J. Ch. Tardieu (1765-1830), Gottliebe Schick (1776-1812), Eugéne Delacroix (1798-1863) e Georges Seurat (1859-1891). Cabe a si, caro leitor, satisfazer a sua curiosidade.

Para o despertar, vou terminar apresentando a foto de um quadro de Jacques Louis David.

E, até à próxima crónica, boa leitura e boa pesquisa.

www.calcadodesportivo.com

http://pt.wikipedia.org

www.cultureschlockonline.com/Articles/shoes.html

www.shoeinfonet.com

www.footwearhistory.com

“Boletim do Grémio Nacional dos Industriais de Calçado”

“ História do Calçado”, Centro

“ 4 000 Ans D’Histoire de la Chaussure”

Por: Jorge Ribeiro

Comentários dos nossos leitores
José
Gostei: Muito Concordo: Plenamente
Comentário:
Queria informar que se está a escrever um manual de fabrico que vai servir para todo o mundo ou para quem quiser ver e aprender como fazer sapatos atravéz quase dum livro, já lavai 6 meses que está a ser escrito e que penso que dentro de 3 meses vai sair para empresários, simpatizantes e outros.Uma obra muito importante para a nossa industria.
 

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