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Apresentação Livro 11/09/2009

Arquivo: Edição de 26-02-2009

SECÇÃO: Cultura


Afri ká sabor sabi

Concerto de Carmen Souza nos Paços da Cultura põe plateia a dançar e a cantar em crioulo

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"É um prazer partilhar a minha música". As primeiras palavras de Carmen Souza ao pisar o palco dos Paços da Cultura no passado sábado levantaram o véu sobre um concerto e uma ainda curta, mas promissora, carreira assente nisso mesmo: partilha.

Nascida em Lisboa há 27 anos de pais cabo-verdianos, a jovem Carmen Souza cresceu a ouvir os grandes vultos da música de Cabo Verde e da música europeia. Envolvida nessa mistura, entregou-se a um género de fusão que tem feito sucesso nas melhores capitais do mundo. "Cabo Verde tem sido muito bem representado por uma nova geração de músicos que tem trazido uma grande frescura à música cabo-verdiana e coisas novas que os europeus se calhar não conheciam", conta ao labor. "Existe uma grande sede em conhecer outros povos. É isso que tenho sentido em Toronto, Londres, Paris. As pessoas têm sede de conhecer outras sonoridades".

Da mistura entre Cabo Verde e jazz, surgiram dois álbuns aclamados pela crítica internacional: "Esse ê nha Cabo Verde" (esse é o meu Cabo Verde), lançado em 2005, e "Verdade", lançado no ano passado e o álbum que a cantora tem vindo a promover dentro, mas sobretudo, fora de Portugal. Foi de "Verdade" que saíram a maioria das músicas tocadas no passado sábado em S. João da Madeira. A faixa homónima deu o arranque, seguida por "Tud Tem Razão", "Ind'Feso" e "Afri ká". Por esta altura, Carmen Souza foi buscar "Tristeza de Vida" do álbum anterior, e seguiu com "Pergunta Sem Fin" e "Levanta No Bai" de "Verdade, para fechar com duas músicas celebrizadas, por Cesária Évora - a "grande imperatriz da música cabo-verdiana", como lhe chamou -, entre as quais a obrigatória "Sôdade".

"Verdade" apresenta um repertório totalmente original em crioulo e assinado por Carmen Souza. A co-produção é dividida com Theo Pas'cal, baixista que acompanhou a cantora nos Paços da Cultura, juntamente com Pedro Segundo, na bateria, e Victor Zamora ao piano.

O trabalho é uma receita musical de qualidade superior, que mistura com eficiência os ritmos tradicionais cabo-verdianos com influências mais contemporâneas do jazz/ fusão, ou como a cantora disse em palco, um espelho de si própria. "A vários níveis", explica posteriormente ao labor, "começando pela música e passando pelo meu dia-a-dia: o meu contacto com a música, o meu crescimento com a música. Tenho vindo a falar muito no acreditar sem ver, que é um bocado a minha filosofia: acreditar e ter fé naquilo que eu faço. Deus também me ajuda e as coisas vão acontecendo".

Inspirada em Horace Silver, pianista cabo-verdiano radicado nos Estados Unidos e considerado um dos grandes marcos do jazz, Ella Fitzgerald e Cesária Évora, Carmen Souza tem sido mais uma voz a trazer a sonoridade africana para um género originalmente afro-americano, mas entretanto ocidentalizado. Porém, sendo de ascendência cabo-verdiana, a cantora não vê grandes diferenças entre os dois estilos. "Existem muitas coisas em comum entre Cabo Verde e o jazz", afirma. "Por causa da colonização, Cabo Verde tornou-se mestiço com as influências de tantos povos europeus e a música, harmonicamente, tem coisas jazzísticas, escalas pentatónicas que ligam muito ao jazz. Nas mornas, por exemplo, passam-se ali escalas que, com um beat de swing por baixo, soa completamente a um standard jazz".

Depois de S. João da Madeira, Carmen Souza toca hoje, 26, em Bragança, e amanhã, 27, em Coimbra. Segue depois para a Suécia, Estados Unidos, Holanda, Canadá, Inglaterra, voltando a Portugal em Julho, num concerto agendado para Sines. Nos Paços da Cultura, a jovem cantora, com simplicidade e graciosidade, conseguiu levantar uma plateia que dançou e cantou "Afri ká sabor sabi" (África sabe bem) até a banda abandonar o palco.

Por: Anabela S. Carvalho

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