Arquivo: Edição de 26-06-2008
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SECÇÃO: Entrevista |
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"O Bandido é um somatório de muitos discos"A primeira edição do primeiro disco a solo esgotou em duas semanas, sem publicidade. “Foge Foge Bandido” é a suma de anos de trabalho, de colaborações e individualismos. Manel Cruz ficou conhecido como vocalista dos Ornatos Violeta, mas é a solo que se sente melhor. Nasceu em S. João da Madeira, terra à qual mantém uma ligação afectiva. Como a que mantém com as músicas que coleccionou para fazer este obra. São 80 músicas e 140 páginas de letras e ilustrações que revelam a simplicidade do homem e a complexidade do artista. A segunda edição de “Foge Foge Bandido” está agendada para Julho e terá, no máximo, 3000 exemplares. Não é uma edição de coleccionador, mas para ouvintes e leitores interessados. O LABOR foi ao encontro do músico, letrista, artista plástico que já tem novas músicas e algumas perspectivas de concertos. Quem sabe, um na terra que o viu nascer... LABOR - “Foge Foge Bandido” parece não precisar de muita publicidade. Se precisasse, como o venderia? Manel Cruz – Sem publicidade (risos). Diria que é o meu trabalho. Uma das coisas que tenho feito nos últimos anos. L- Então, o que é que tem feito? MC - Tenho gravado umas músicas para o “Foge Foge Bandido”, feito um livro...
Este é o primeiro trabalho a solo, mas a lista de colaborações é gigante... MC - É menos a solo que os outros. É a solo na medida em que fui eu que mandei, que organizei tudo, montei o projecto e impus um prazo, tempo de audição, de satisfação. Tentei dar a liberdade total às pessoas que colaboraram, sem lhes dar o peso da responsabilidade. Normalmente, numa banda, é repartido. Neste caso as pessoas só tinham que ir lá para casa e fazer aquilo que lhes apetecesse. Depois cabia-me a mim o critério de selecção e edição. Nessa medida é um disco a solo, porque fui eu a levá-lo para onde me apetecia. Neste momento, faria as coisas doutra maneira. Àquilo que me fui propondo, acho que fiquei satisfeito. Não era muito diferente disto que eu imaginava. O único plano que tinha era chegar ao fim e ficar satisfeito. Era isso que não me acontecia dantes e por isso levou tanto tempo.
L - Há alguma colaboração que gostasses muito de fazer e que nunca tenha acontecido? MC - Há uma pessoa com quem eu gostava de fazer qualquer coisa. É a Ana Deus (Ban e Três Tristes Tigres). Depois há sempre pessoas com quem eu gostava de trabalhar. Basicamente, todos os músicos de que gosto, e são muitos. Tenho conhecido bastante mais gente desde que estou com o “Bandido” e vêm-me à cabeça muitas ideias, mas só o tempo é que vai dizer.
L - O bandido é o Manel? MC - Sim e mais os quarenta ladrões.
L - Está a fugir de quê? MC - Não sei, acho que de muitas coisas. Mas, acima de tudo do tédio, de pensar em coisas que não quero, prefiro pensar em coisas de que gosto. Tanto se pode ver como uma fuga ou como uma procura. A pessoa pode pensar que está a fugir de uma coisa ou a procurar outra, se calhar são as duas coisas em simultâneo. Acima de tudo, acredito que as pessoas nunca sabem em que é que as coisas estão alicerçadas, mas pensar num prazer puro é uma coisa um bocado romântica. O prazer pode ser alicerçado em medos, imensas fugas, mas acredito que há um prazer puro de fazer coisas, de criação, quase genético. As pessoas têm mesmo essa necessidade de criar coisas, é quase como comer.
L - Essa necessidade de criar, como a descreve é quase uma necessidade biológica . É por causa desta necessidade que o vemos nos Ornatos Violeta, nos Supernada, nos Pluto, nas colaborações com os Da Weasel. É por isto que tem tantos projectos? MC - Sim, se calhar é no sentido de sentir uma procura sempre diferente, uma frescura. Eventualmente, a procura das pessoas com quem tocas é uma procura para que as coisas não sejam estáticas. Eu nunca me identifiquei muito com aquela coisa de ter uma banda com 70 anos de carreira. Para mim era uma seca desgraçada.
L - Então, o “Bandido” é mais um projecto paralelo ou significa que acabou com Pluto e Supernada? MC - Tenho muitas saudades de tocar com os Pluto, já não tocamos há muito tempo. Se nós tivéssemos tempo infinito fazíamos tudo. Temos um tempo limitado e temos que dedicá-lo à coisas mais importantes. Como não dá para tudo tivemos que parar mas, não sei se acaba assim. Acho que o “Bandido” abriu-me muitas perspectivas. Para mim, o “Bandido” é um somatório de muitos discos. Podia ser muitos discos misturados.
L - Há músicas que do “Bandido” que já se ouviram com Pluto, por exemplo. MC - Sim e com Supernada também. Já antes dos Pluto e Supernada eles (músicos destas bandas) conheciam as músicas e de algumas era fixe fazer uma versão. Acabaram as versões por sair antes do disco (risos). Imagino que seria perfeitamente possível fazer uma produção com três canções de Pluto, mais duas de outra banda e mais uma de uma banda que eu conheça e fazer uma compilação com músicas. Não tem, necessariamente, que se esperar até ter um disco. De repente, pode aperceber-se que se tem um disco na gaveta. Mas, às vezes até pode ter-se vontade de lançar uma coisa agora e é agora o momento, não tem que se esperar por mais dez músicas. Também me alicia a ideia de pensar em novos formatos. Agora, com a internet pode fazer-se uma música e pô-la logo lá. Gostava de aproveitar isso para dar mais vazão ao fluxo, não produzir tanto as coisas até elas estarem prontas para um formato determinado.
L - Isso vai um nadinha contra o “Bandido”. Há uma música que tem 12 anos. As músicas estiveram de molho e agora é que estão prontas? Quando é que se apercebeu que já tinha um disco? MC - Aquilo foi tudo em paralelo. Tanto tinha dez canções que feitas à guitarra, um género de canções que andava a fazer e nunca gravei, como tinha coisas que ia fazendo no computador, como tinha músicas antigas que nunca tinha pegado e sempre tinha gostado... Ia pondo tudo para o computador, nem pensava em fazer um disco. Tinha os Supernada, os Pluto, os desenhos. Pensava: “Isto é a minha curte aqui em casa, quando chego e faço aquilo que me apetece”. Quando comecei a ver tinha muitas músicas, muitos projectos de músicas. A minha proposta para mim mesmo foi: “vou grava-las todas, por todas a soar o melhor possível e as que estiverem mais fixes depois escolho”. As coisas foram evoluindo e deixei três de fora. Não cabiam no disco, curiosamente. Mas, achei: “como tenho este tempo todo vou fazer uma obra grande”. Eu gosto da ideia de numa obra grande, de puder ter um objecto de desfrute, que seja especial e que tenha aquele lado de luxo e recantos. Achei que era a altura, que tinha o material para isso.
L - Todos estes projectos... há uma vida paralela, uma actividade principal que as pessoas não conhecem? MC - Tenho o desenho que as pessoas vão conhecendo, não tanto como a música porque tenho menos coisas editadas. As artes plásticas, seja a pintura, o desenho, a bricolage. Anda sempre pela criação. Mas actividades mesmo são a música e as artes plásticas.
L - Canta sempre em Português. Há alguma razão especial? Os próprios jogos com palavras, jogos de fonética, a musicalidade das palavras. Gosto da ideia da canção. Há muitas razões para cantar em português. Sou português, mas não quer dizer que não tivesse mais afinidade com outra língua.
L - Às bandas novas que cantam em inglês porque acham que é mais fácil de se exprimirem ou de atingirem os mercado internacionais, tens algum recado a deixar? MC - Para as pessoas que acham que é mais fácil alcançar os mercados internacionais acho que isso não é líquido. Acho igualmente possível, senão mais, alcançar pela diferença. Não me identifico com essa ideia de alcançar mercados. A ideia é alcançar pessoas. Não tenho muito essa ambição, embora goste de saber que as pessoas gostam do que faço. Se souber que são muitas pessoas a gostar fico muito contente. Para o caso de ser mais fácil eu acho que também não é líquido. Pode ter-se a ilusão de que é mais fácil porque se tem mais referências e as coisas te soam mais a sério, cai menos no ridículo, etc. Mas, isso é uma ilusão, porque no fundo as coisas são o que são e só interessa para ti. Acho que as pessoas devem cantar em inglês se de facto gostarem do inglês e se para elas isso constituir um desafio. Se for por uma questão estética, então acho que sim, que é salutar e legítimo. Essas ideias do inglês porque é mais fácil acho que é mesmo um sinal de desinteresse total porque as coisas não são feitas para serem fáceis. Gosto é de desafios e acho que tanto uma língua como outra pode ser um desafio. As pessoas têm que exorcizar o medo do ridículo. Sinceramente, sinto que a procura artística não está muito legitimada em termos sociais. Ou seja, as coisas são reconhecidas quando são projectos acabados, quando são apresentadas. Mas, para que isso aconteça é preciso passar pelo processo, passar pelo zero. E esse zero pode ser ridículo, mas não quer dizer que o final vá ser ridículo. A ideia da originalidade é uma ilusão tremenda. As coisas estão sempre a ser inventadas e re-inventadas. Não interessa fazer uma coisa que seja aparentemente original. O importante é que seja original relativamente à nossa maneira de sentir. O que me faz impressão é a desistência das pessoas face a essa procura. Essa procura é inevitavelmente difícil. Só com o tempo é que nos tornamos mais experientes. E depois, quando nos tornamos experientes podemos resignar-nos com a experiência que temos ou estabelecer novos objectivos.
L - Os novos objectivos do “Bandido”, são concertos? MC – Sim, se conseguir ter a disponibilidade das pessoas todas. Queria fazer três coisas: alguns concertos sozinho, outros com três ou quatro pessoas numa salinha e eventualmente fazer um concerto maior. Não digo com todos (os músicos) senão é mais músicos que público. A ideia é fazer 10 ou 15 concertos seguidos e acabar por aí. É difícil ter a disponibilidade das pessoas. Às vezes juntamo-nos à noite, só que o pessoal vem do trabalho e não é tocar que apetece, apetece é fazer uma jam e falar. As coisas são muito lentas. Por isso, não sei. Se calhar até vou pegar sozinho na guitarra.
L - Agora, em que fase está, a recolher os lucros? MC - Sim, a começar a colher o que semeei, mas também já estou a fazer coisas novas, gravações novas e músicas novas. Já estou com a cabeça noutras coisas. Não se pode parar.
L - Estas músicas novas vêm na segunda edição? MC - Não. É já para outras coisas.
Novos projecto a solo? MC - Acho que agora vou estar sempre muito mais independente das bandas. Não quero mais bandas naquele sentido tradicional de pessoas que têm um projecto e que partilham tudo. Prefiro pensar em termos de canções. Identifico-me mais com a ideia de caçador de canções e de momentos de música. Uma das coisas em que o “Bandido” foi muito fixe foi: criar alguma autonomia na questão da gravação. Apercebi-me que muitas das coisas surgiram muito mais bonitas no momento em que eram gravadas com más condições, só por uma questão de registo. Depois, quando as ia gravar não ficavam tão bem. Então tenho que tentar ao máximo aproximar o momento em que surge com o momento da gravação. Nem que depois seja preciso editar coisas e misturar. Tenho levado os gravadores para a sala de ensaios. Ando sempre numa meia demência de coisas e ficheiros misturados. Neste momento, é impossível ensaiar as musicas. A não ser que seja para um espectáculo. Mas mesmo o “Bandido” não é ensaiar, é fazer um novo espectáculo. Por isso acaba por ser um novo desafio.
L - Lançou 1100 exemplares do bandido. É muito, é pouco? Porque 1100? MC - Há dez anos 1000 não era considerável... quer dizer, não sei. Esta questão do mercado e do on line... Se calhar agora vender 1000 é mais considerável porque há outras formas de conseguir as coisas. A razão pela qual fiz 1100 é porque o investimento foi meu. A minha ideia é: com o dinheiro desta fazer outra e assim sucessivamente. E não dar passos maiores que as pernas. Acho que 1000 discos não é muito. Para mim é satisfatório. Isto é um objecto para vender especificamente aos interessados. É para ir vendendo aos poucos. Não me agrada a ideia da publicidade. Acho que a informação de que determinado produto está à venda, em que consiste é importante. É mais abonatório para uma coisa quando não se exagera. Acho que as pessoas dão mais hipóteses a uma coisa que não é excessivamente publicitada. Eu gosto de procurar as coisas pelo interesse que tenho e não porque me estão a impingir. Foi uma opção de tentar ser mais sóbrio.
L - Não fez publicidade nenhuma... MC - Não, só informação em press releases, o banner no site da CDGO e o boca a boca que é um óptimo veículo para os interessados.
L - Tem a certeza que aquelas mil pessoas que compraram são mesmo os interessados? MC - Sim, sabiam ao que iam. Ouviram falar, alguém recomendou... Gosto dessa ideia dos interessados. Foi o tempo que foi fazendo isso e daí também é mais fácil para mim aceitar como uma coisa merecida. Não tenho dúvidas que foram essas pessoas que decidiram gostar e querer aquilo, não estão levadas por nenhuma moda. Eu não gostava muito de quando estava na Universal (editora) daquele formato de passar um single na Antena 3 vezes sem conta, até eu não puder não puder ouvir a minha própria música. Tinha sempre a sensação que as pessoas acabavam por ouvir aquilo porque eram obrigadas e isso não me dava o prémio. Baralhava um bocado a sensação de retorno porque não se sabe quem é de facto o público. Por exemplo, agora o “Bandido” já ouvi dizer que passar a noite no programa do Henrique Amaro, que é um programa de autor. Dá-me ideia que passa quando alguém se lembra de passar esta música. Eu gosto muito disso. Acho que fico satisfeito de não passar durante o dia. Acho que a radio é muito parada, hiper repetitiva , é doentio. Muito pouca diversidade. Entendo que o “Bandido” não entre nesse contexto porque também fiz questão de não mandar singles. Se calhar não passava na mesma, estou aqui a falar... Os esquemas com as editoras estão montados. As coisas que passam são coisas que estão a sair em determinadas editoras. Eu acho isso intelectualmente pouco estimulante para as pessoas. Também não gosto da ideia dos singles. Porque é que uma radio não há-de passar uma música e outra radio outra? A minha ideia de não lançar singles também é um bocado deixar às radios, se tiverem vontade de passar, a responsabilidade de escolher. E acho naturalíssimo que isso não aconteça.
L - Para quando a segunda edição? MC - Nós estamos mesmo a tentar “stressar” com a gráfica. Queremos ver se é para Julho.
L - Exactamente igual à primeira ou vais guardar a primeira para os 1000 espertos... MC - Não vai ser carimbada. Isso foi o que deu mau entendido porque não era uma edição limitada, mas sim carimbada com os números. A edição vai ser diferente porque vai ter envelopes em vez de pins para segurar os cd’s, porque os pins não funcionam. Vou mudar para envelopes e tentar fazer envelopes extra para quem quiser ir trocar. Vai ter também um bocadinho mais de letra no livro, que vou acrescentar numa das páginas porque me esqueci. É daqueles erros que eu sabia que ia acontecer. E vai ter uma errata no nome do Brendan Hemsworth, vou mudar-lhe o nome na próxima edição.
L - Esta segunda edição vai estar a venda só na CDGO e na livraria Bulhosa? MC - Eu pus no site que lojas interessadas podem ter e já tenho algum feedback. A nossa ideia e fazer um itinerário de distribuição pelo país.
L - Quantos exemplares terá a segunda edição? MC - Estamos a ver a questão dos preços. Entre 2, 3 ou 5 mil. 5 talvez seja exagerado. Mas possivelmente vamos fazer uma edição de 2000. 3000 no máximo. E vamos assim degrau a degrau.
PERGUNTAS DE FÃ
L - Porque é que acabaram os Ornatos Violeta? MC - Cansaço, diferenças. Quando tu pensas que queres fazer isto e aquilo e não consegues... Podes até ter uma coisa boa ali (nos Ornatos), mas vês sempre aquilo como um obstáculo. Nós continuávamos, embora na altura não nos apercebêssemos, com vontade de fazer coisas juntos. Mas essa vontade estava magoada com as opções do dia-a-dia, com as opções que tínhamos que tomar face a uma conjuntura e com as pressões do que os Ornatos eram... Essas coisas acabam por assombrar os projectos. Aquilo que te faz fazer uma coisa numa determinada altura sem essas pressões é o que de facto faz a coisa acontecer e tens que continuar a respeita-la mais tarde e é mais difícil. Muito mais quando é uma banda. Tornou-se impossível porque as pessoas estavam a extremar posições face a uma coisa que era muito simples: cada um ir para seu lado, continuarmos a fazer coisas juntos e não termos que estar ligados a um projecto que já sabemos para onde é que querem que vá. Acho que foi a melhor coisa que nos aconteceu. Desde aí a nossa música alargou-se muito porque ficámos com muitas mais pessoas, baixámos um bocadinho as expectativas e tornámo-nos mais humildes. Não adianta estarmos com ilusões porque o importante é a música e as coisas que temos para dar dentro de nós. Se formos a pensar não é assim tão importante. O mais importante somos nós e estarmos fixes uns com os outros, sermos amigos e continuarmos a fazer música. Quando acabámos as coisas melhoraram consideravelmente. Nós chegámos a morar todos juntos, durante um ano, numa casa e andávamos à turra, já não nos suportávamos. Quando decidimos sair de lá abrimos uma garrafa de champanhe e automaticamente ficámos super amigos.
L - Tinham um terceiro álbum quase pronto. Foi para o lixo? MC - Estavam já muitas coisas esboçadas e havia muitas ideias. Não sei se vamos pegar em alguns trechos musicais daqueles, um dia. Eu cheguei a pensar nisso, um dia pegar em três ou quatro coisas que gosto dali e completá-las, com eles ou sem eles. Nós temos sempre essa coisa dos produtos que surgem das coisas e fazer 300 versões da mesma musica e largar na internet. Mas sei lá, tenho tantas coisas que me apetece mais fazer do que isso...
Por:
Liliana Guimarães |
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